Cabo Verde quer estar “na linha da frente de todos os combates pelo Oceano”

PorNuno Andrade Ferreira,19 nov 2023 12:16

Sexta edição da Ocean Week decorreu em São Vicente. Evento combinou painéis temáticos com actividades abertas à comunidade, porque “o mar é de todos”.

Num país “pequeno”, “vulnerável a choques externos”, que é “muito mais mar do que terra”, o Primeiro-Ministro abriu segunda-feira, em São Vicente, a edição de 2023 da Cabo Verde Ocean Week (CVOW).

No Centro Oceanográfico do Mindelo, Ulisses Correia e Silva subiu ao palco para reconhecer que o arquipélago continua a ter um grande potencial por desenvolver na economia azul e que, por isso, mas também pela sua condição insular, deve estar “na linha da frente de todos os combates pelo Oceano”.

“Somos um pequeno país, mas fazemos questão de ser relevantes”, lembrou.

O chefe de governo ambiciona preservar os ecossistemas, ao mesmo tempo que industrializa as ilhas e desenvolve a economia, fazendo-o com energia limpa, que permita reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, “por motivos económicos, ambientais e climáticos”.

“São imperativos de um país que, necessariamente, tem de reduzir a dependência de combustíveis fósseis. Aquilo que consumimos, em termos de energia, representa 80% das importações. E estamos expostos a crises energéticas e aumentos de preços internacionais de combustíveis, com impacto na balança de pagamentos, com impacto na economia das famílias e das empresas. Por isso, não temos alternativa. É mais energia renovável e mais energia limpa”, acredita.

Ulisses recordou a meta de chegar a 2030 com mais de metade da electricidade produzida no país proveniente de fontes renováveis, estabelecendo a ligação entre estas e a produção de água dessalinizada, com menores custos de produção.

“É um imperativo deste país criar condições de reduzir a dependência da exposição a situações relacionadas com fenómenos meteorológicos extremos, como secas”, explicou.

Não é de agora a ideia governamental de colocar Cabo Verde como um centro de desenvolvimento de competências no domínio da economia azul. Na abertura da Ocean Week, o Primeiro-Ministro voltou ao tema, para salientar a necessidade de formação técnico-profissional e superior.

“Não se consegue fazer boa colheita, sem uma boa plantação e as plantas precisam de tempo para produzir resultados”, disse.

O território nacional é muito maior do que os 4.033 km2 de superfície terrestre, equivalentes a apenas 1% de toda a área territorial que pertence a Cabo Verde. O objectivo principal da CVOW é, segundo a organização, elevar a consciencialização e fomentar o diálogo sobre a essência, a importância e a sustentabilidade dos oceanos, para criar uma cultura voltada para a preservação e conservação da saúde do mar, com exploração sustentável dos recursos marinhos nos mares sob jurisdição nacional.

Fazer com que os cabo-verdianos se apropriem do Oceano é outra das metas do evento, sob tutela do Ministério do Mar. O ministro da pasta, Abrãao Vicente, não quer que o arquipélago se projecte pela sua pequenez e falta de recursos, mas como “um país que pode oferecer muito, a partir do seu imenso mar”.

“Criámos esta nova narrativa, que passa por envolver todos os sectores na construção desta ideia de que o mar é de todos. Ao trazer o desporto, ao trazer a cultura, tomamos consciência que não é só debatendo entre portas que levamos a importância e a urgência do mar”, comentou, ao falar na sessão de abertura da CVOW.

A Ocean Week é celebrada anualmente na cidade de Mindelo e noutros pontos de São Vicente. A edição deste ano começou domingo, com uma prova desportiva que combinou natação, corrida e ciclismo, denominada Triocean, e uma mostra gastronómica, Blue Food. Ontem, o dia foi preenchido com painéis temáticos, denominados Blue Talks. Hoje, a agenda faz-se no Centro Oceanográfico, com uma nova série de palestras e debates. Na Gare Marítima será oficialmente aberta a Feira Azul. A programação completa está disponível em caboverdeoceanweek.cv

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Exploração de recursos marinhos de profundidade depende de aposta em investigação e frota moderna

Para que Cabo Verde consiga explorar recursos marinhos de profundidade, nomeadamente pesqueiros, deve reforçar a aposta na investigação científica e modernização da frota. Quem o diz é o presidente do Conselho Directivo do Instituto do Mar (IMar), Albertino Martins, que falava terça-feira na Cabo Verde Ocean Week.

“Não estamos a ser eficientes, neste aspecto. Temos espécies com muito mais valor comercial, temos o cherne, o boca negra, que são recursos que estão muito mais a fundo e que não estamos a atingir, porque não temos uma frota especializada. Daí a questão da modernização da frota. Alguns recursos estão em stress e outros não estão a ser explorados. Há que haver mudança de mentalidade, para que possamos ser mais eficientes e explorar de forma sustentável esses recursos”, enfatiza.

O líder do do IMar também aponta a oportunidade do investimento em equipamentos de teledetecção e navegação, que permitam aumentar a efectividade da actividade pesqueira.

“A rentabilidade é maior, os custos de produção são inferiores. A tecnologia é fundamental”, comenta.

“Claro que o investimento inicial é um handicap. O investimento inicial, muitas vezes, é superior àquilo que os nossos armadores conseguem, mas há sempre financiamentos”, sinaliza.

NAF/FR

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1146 de 15 de Novembro de 2023.

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Autoria:Nuno Andrade Ferreira,19 nov 2023 12:16

Editado porSheilla Ribeiro  em  29 fev 2024 23:28

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