O caminho deixou de ser longo entre Cabo Verde e São Tomé e Príncipe

PorJorge Montezinho,12 ago 2023 9:26

Começou com a amizade, continuou com um sonho e deixou alicerces reais no território. Depois de 10 dias no terreno, o seminário internacional reInventar as roças: Água Izé – organizado pelo consórcio Entreposto das Artes formado pela Roça Mundo, de São Tomé e Príncipe, e o M_EIA, de Cabo Verde – deixa em São Tomé, para além de um dossier que já está nas mãos das autoridades nacionais, acções já a começar a ser implementadas e outras a realizar a curto prazo.

Entre os dias 23 de Julho e 3 de Agosto, uma equipa multidisciplinar de são-tomenses, cabo-verdianos, portugueses e espanhóis, em interação com a comunidade, trabalhou no terreno, recolhendo, processando e produzindo um considerável conjunto de informação, ferramentas e recomendações, e, essencialmente, um desejo sustentado: reinventar Água Izé como cidade à cabeça de um território que outrora foi roça. 

A roça de Água-Izé, das maiores de São Tomé, tinha uma extensão de cerca de 80 Km2, com 12 Km de costa e 4800 hectares de área cultivada. Pertencia ao primeiro Barão d’Água-Izé, João Maria de Sousa e Almeida, nascido na ilha do Príncipe, descendente de uma família mestiça abastada, de São Salvador da Baía, a qual tinha emigrado para o Príncipe nos finais do século XVIII. 

Em 1855, Sousa e Almeida introduziu a cultura do cacau na ilha de São Tomé. Em 1857 a exportação atingiu 12,7 toneladas. Também se dedicou à produção de tabaco, inhame e café, trabalhando ao mesmo tempo na exploração de madeiras. 

Actualmente, vários milhares de pessoas habitam a antiga roça – famílias que se dedicam à agricultura e também ao turismo – cujas infra-estruturas têm-se degradado ao longo dos anos e onde vários edifícios já desapareceram. 

A Água Izé reinventada em cidade baseia-se no reconhecimento das suas potencialidades e recursos, e cujo planeamento deverá projectá-la como centralidade do território que outrora foi uma roça. “O desafio principal é despertar o desejo de mudança nas pessoas, e o móbil da causa reside no íntimo da comunidade, que precisa ser inspirada a sonhar e vislumbrar um futuro próspero e transformador para sua cidade”, lê-se n dossier que ficou com as autoridades são-tomenses. 

“Todos os companheiros que participaram, sonharam, ousaram ser atrevidos, para iniciar este trabalho”, como referiu João Carlos Silva, da Roça Mundo, durante a sessão de apresentação da exposição que encerrou – ou iniciou, conforme se queira ver – os trabalhos antes desenvolvidos no terreno.

“Não há cidadania activa, participativa, sem este tipo de exercícios, pensando nos nossos respectivos países, mas particularmente nas populações destes mesmos países. Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, irmanados, juntos”, reforçou João Carlos. “Como se repensa este país [São Tomé] sem ter no pensamento e na acção as roças? Reinventar, redesenhar, significa em primeiro lugar, e isto foi sempre uma preocupação de todos os que participaram neste trabalho: as pessoas, as pessoas que estão no lugar”. 

O futuro de Água Izé

Há uma certeza em relação à antiga roça Água Izé, futura – como se pretende – cidade Água Izé: com engajamento coletivo, as potencialidades serão aproveitadas, os recursos optimizados e o local afirmar-se-á como exemplo de desenvolvimento sustentável. 

Do seminário, saíram propostas que implicam o território que outrora foi a roça Água Izé, é constituído por espaços classificados como floresta, zona urbana estruturante e por estruturar, orla marítima, áreas comerciais e industriais, e integra as comunidades rurais do Distrito de Cantagalo. 

A área em foco é composta pelo edificado industrial e residencial da antiga roça e pelos dois antigos hospitais. “É um núcleo urbano constituído por uma malha urbana regular adaptada à topografia existente na parte antiga, envolvido por uma área em expansão de construções dispersas e sem infraestruturas”, refere o dossier.

O núcleo urbano em questão, potencialmente uma cidade, tem vindo a sofrer transformações que tornam pertinente a definição de um quadro de futuro e a criação de instrumentos para o concretizar. No fundo, trata-se de um território em mudança que reclama ordem e planeamento. 

Há questões sensíveis como as condições de habitabilidade da população e o seu acesso a cuidados de saúde, bem como questões relativas aos recursos existentes e à forma como são integrados no desenvolvimento local. “Que seja com as pessoas, para as pessoas e para a comunidade no seu todo, é a principal preocupação desta proposta”, lê-se no documento final.

Para libertar e integrar todo o potencial de Água Izé, são necessárias iniciativas de desenvolvimento integrado e estratégico. O dossier final apresenta uma abordagem abrangente para enfrentar o desafio, identificando cinco áreas de intervenção sectorial: educação, social, cultural, económica e saúde, sendo o planeamento urbanístico uma ferramenta essencial para assegurar a sua integração.

Caso prático: o turismo

Actualmente, a actividade turística em Água Izé é muito escassa. Funciona como um lugar de passagem para os turistas alojados noutras zonas da ilha. Apenas alguns a visitam, acompanhados por guias locais num passeio que se inicia na entrada e termina nos hospitais. 

Ao local falta qualquer tipo de infraestruturas, equipamentos e alojamentos turísticos, embora reúna uma grande variedade de recursos e possibilidades de aproveitamento turístico. 

• Património arquitectónico: Arquitectura popular (palafitas) e colonial (casas do proprietário, administrador, sanzala, hospitais e igreja). 

• Património industrial: estufas de cacau, fundição e serralharia, armazéns, etc. 

• Património cultural imaterial: história da roça, expressões da cultura popular (gastronomia, música e danças, etc.).

• Centro cultural FACA: centro de exposições e outras atividades culturais.

• Sistema agroflorestal: plantações de cacau, banana e outras frutas na zona florestal.

• Património natural: mato, litoral (Praia-Rei, Boca do Inferno). 

Ou seja, Água Izé é um lugar com um potencial turístico enorme. A diversidade de recursos que dispõe abre um amplo leque de possibilidades que permitiriam a diversificação e o desenvolvimento da sua economia, fomentando diferentes modalidades turísticas baseadas em critérios ecossustentáveis:

• Turismo cultural: visita ao património arquitectónico e industrial, ao centro cultural FACA e, ainda, a interacção com a população local. 

• Ecoturismo: baseado, fundamentalmente, na prática de trekking pelo mato que forma parte da roça.

• Agroturismo: visita e degustação nas plantações de cacau, bem como de outros frutos. 

• Turismo marinho: uma das vantagens que apresenta Água Izé é a sua localização costeira. No litoral encontra-se ainda a Praia-Rei, onde se pode desfrutar o mar. Além disso, permite a prática de actividades como mergulho, surf, pesca ou navegação nas embarcações dos pescadores locais. Assim, partindo destas possibilidades, idealizou-se a proposta de um itinerário turístico com o objectivo de dinamizar o turismo em Água Izé.

• Itinerário turístico: orientado para uma gestão dos próprios guias locais. Propõem-se uma série de rotas com diferentes pontos de interesse turístico, que transitam por distintas zonas da roça. A concretização desta proposta permitiria aos guias locais organizar a sua actividade, apresentando e explicando aos visitantes as caraterísticas e história dos diferentes recursos de Água Izé. 

Cooperação Sul-Sul

“Quando provocamos alguém, essa pessoa reage”, disse João Carlos Silva, na inauguração da exposição. “Mas ficamos mais satisfeitos ainda quando essa pessoa age. E quando provocamos o Leão [Lopes – reitor do M_EIA], ele provocou uma série de pessoas amigas – por isso a palavra amizade esteve na base de tudo – de universidades como Coimbra, Porto, La Laguna, o seu próprio instituto universitário, porque nós, Roça Mundo, não tínhamos experiência de trabalho com comunidades e o Atelier Mar e o M_EIA, do Mindelo, têm muita experiência a esse nível, nos seus territórios, e os resultados são reconhecidos internacionalmente. E se nós temos uma relação histórica de cultura, de gente, com Cabo Verde, porque não iniciar esse trabalho com o pensamento na cooperação Sul-Sul e ver o que Cabo Verde já tem feito, que caminhos encontrou e experimentarmos juntos alguns desses caminhos em São Tomé”.

“Saímos daqui verdadeiramente gratos pela aprendizagem, por aquilo que este seminário nos proporcionou que é aprofundar mais o nosso conhecimento sobre São Tomé, compreender melhor algumas particularidades da sua história e da sua cultura e, sobretudo, perceber o quanto nos une, não só pela mesma matriz histórica, mas também pelos afectos que temos estado a desenvolver ao longo do tempo”, sublinhou Leão Lopes.

“Sabemos que há um esforço grande entre os nossos países em aprofundar a cooperação bilateral que vem desenvolvendo nos vários sectores”, continuou o académico, “e saímos daqui com o sentimento de que podemos fazer muito mais em termos de cooperação com os nossos dois países, aqui e lá”. 

O reitor do M_EIA apelou a que os governantes ponderem melhor os instrumentos que podem ter à disposição para operacionalizar projectos, recordando que a sociedade civil pode ser um parceiro interessante para potenciar todas as intenções políticas.

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“A sociedade civil organizada, as universidades, o conhecimento que podemos ir trocando aqui, em Cabo Verde, e noutros lugares de que fazemos parte, pode ser extremamente importante para dar substância às acções que sustentam essa cooperação bilateral estabelecida. Este é o ensinamento que levamos daqui, seria esta a mensagem que gostaria que Cabo Verde ouvisse e ponderasse”, reforçou Leão Lopes, que pediu ao primeiro-ministro de São Tomé, presente na cerimónia, que transmitisse o recado ao homólogo cabo-verdiano, que vai estar em STP para participar na XIV Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP, que decorre de 21 a 27 deste mês. 

O compromisso estatal 

O dossier que saiu deste seminário internacional, vai fazer com que o governo de São Tomé fique munido de documentos que pode utilizar como entender. Provocador, o responsável pela Roça Mundo, João Carlos Silva, aproveitou a presença do Chefe do Governo para o convidar a assumir o compromisso de que vão fazer este caminho juntos, na construção de parcerias público/ privadas. [João Carlos Silva também sublinhou que “com o nosso jeitinho”, iria continuar a recordar ao primeiro ministro tudo o que dissesse na ocasião].

Bem-humorado [como mostrou também na entrevista ao Expresso das Ilhas], o primeiro-ministro Patrice Trovoada disse que abraçou o projecto logo de início, “mas agora o João quer matar mesmo, atarme de pés e mãos. Esse abraçar que deverá evoluir para compromisso é um compromisso consciente de que na pesada responsabilidade que temos de dirigir temporariamente STP, não podemos ignorar o que faz parte de STP, que é a cidade, mas também a roça”. 

Segundo o Chefe do Governo, a escolha de Água Izé não podia ser melhor, porque é uma roça com uma complexidade histórica, geográfica, cultural e económica que nos traz um pouco de tudo o que é a identidade são-tomense. 

“Somos um país com uma grande percentagem de compatriotas de origem cabo-verdiana, Água Izé é também o cacau, os portugueses. E os traços arquitectónicos dos edifícios têm até amor, porque o colono, de certa maneira, também tinha amor à terra”, disse Patrice Trovoada.

“Água Izé é também, mesmo em tempos antigos, uma forma de globalização, porque o barão de Água Izé era do Brasil e dizem que existe lá o resto de uma sinagoga. Portanto, Água Izé é São Tomé, é a nossa realidade, mas é o mundo também. Por isso havia uma necessidade de salvaguardar aquilo que foi Água Izé, mas também perspectivar Água Izé naquilo que é São Tomé hoje. Um país que continua a ter uma forte âncora no mundo rural, mas um país que tem também todos os desafios do crescimento, do desenvolvimento, das influências, da vontade de crescer – da necessidade de crescer – e da falta de uma cultura do crescimento”, referiu o primeiro-ministro são-tomense, para quem esta colaboração São Tomé/Cabo Verde pode ser uma grande oportunidade para partilhar experiências e corresponder às expectativas. 

“Não estamos a encerrar nada, estamos a iniciar algo. Para nós é, não só um ponto de partida como também uma referência, e espero que os diversos sectores do Estado internalizem este projecto, contribuam, participem, ajudem, mas deixando a vocês, sociedade civil, a liderança. Não cabe ao Estado fazer tudo, o Estado, em vez de um impedidor, deve ser o catalisador e o facilitador das iniciativas de cidadania e dessa cooperação entre povos, entre gente boa, inteligente, atrevida, mas que, no fundo, é gente que ama gente e quer que este seja um mundo melhor”, concluiu Patrice Trovoada. 

O Expresso das Ilhas viajou para São Tomé e Príncipe a convite do Entreposto das Artes

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1132 de 9 de Agosto de 2023.

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Autoria:Jorge Montezinho,12 ago 2023 9:26

Editado porAntónio Monteiro  em  25 fev 2024 23:28

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